João Luís de Medeiros (2007)
... O prestígio musical do Grupo de Cantares Belaurora dispensa o desfile das adjectivações vulgarmente usadas para emprestar a luz desnecessária à
claridade. Como vivente açoriano há anos longe da sua terra, posso confirmar
que desde 1990 me habituei à ressonância artística e à personalidade musical
deste valioso Grupo de cantares açorianos.
Acabei há pouco de apreciar o recente trabalho publicamente apresentado por tão distinto grupo de amadores da música popular açoriana. Para validar a minha opinião, não receio ser apanhado a escrever atrelado aos dizeres autorizados de gente conhecedora em matéria musical. Mas desta feita estou dispensado de cometer a temeridade de registar ou subscrever um "parecer" especializado sobre a categoria técnica do músico Carlos Sousa, de cuja amizade me considero honrado. Apesar do muito que já foi dito, a emoção genuína não sabe conviver com o silêncio...
Começaria por notar que o Grupo de Cantares Belaurora impressiona logo à primeira vista: a sua invulgar "silhueta" global parece esculpida no basalto da fraternidade avessa à tentação estrelante. Vamos dizê-lo doutra forma: a individualidade artística dos intérpretes do Belaurora está decididamente apostada num projecto conjuntivo: ao longo dos anos, Carlos Sousa tem sido o esteio directivo que continua a manter sob o pálio da "Voz dum Povo" a complementaridade artística dos elementos que integram o "seu" amado Belaurora.
Perante a ausência voluntária de vedetas de serviço, o Grupo apresenta-se, simplesmente, como uma constelação solidária de artistas...
Como já disse, deixaria as considerações sobre a celebrada qualidade musical do Grupo aos estudiosos na matéria. Diria apenas o seguinte: primeiro, que Carlos Sousa não procura reproduzir, caritativamente, o eco da tradição musical da sua terra; depois, para lembrar que o nosso "maestro" não comete a ligeireza de remendar o tecido melódico da simplicidade rural dos seus antepassados, com "retoques" sensacionais de discutível sonoridade moderna. Nada disso!
Em nosso entender, o Grupo de Cantares Belaurora não dispensa a humildade de receber o seu baptismo da inspiração nas fontes originais da tradição açoriana. E assim vai, na ânsia de reforçar o "arco-de-ponte" entre
gerações: recriar, musicalmente, a essência dos cantares populares da nossa
terra, numa mensagem atractiva às prioridades sócio-culturais da geração
actual. Pessoalmente, receio que a maioria da juventude açoriana esteja
distraída das suas tradições. Não por calculado desprezo às suas origens e
aos seus valores, mas talvez por que acossada pelo imediatismo globalizante
da mega-indústria do musical-pop...
Mas creio que há ainda outro factor significativo que distingue a
inconfundível missão de Carlos Sousa: a inequívoca dimensão regional (e não apenas insular) da sua intervenção cultural. Quando vemos e ouvimos
Belaurora (como aliás se pode confirmar pelo excelente trabalho ora
publicado e registado em DVD) cedo se repara que não estamos em presença dum grupo do folclore micaelense: o timbre equilibrado da dicção das vozes em coro; a escolha dos temas, contemplando todas as ilhas; a controlada
facilidade como interpretam Marciana (São Miguel), Chamarrita Nova (Corvo), Saudade (São Jorge), Manjericão (Pico); a curiosa circunstância de
introduzir instrumental inovativo (caso da flauta, clarinete, sobretudo,
saxofone) - todos estes factores representam opções artisticamente pensadas,
e talvez apostas culturais apontadas ao coração das novas gerações da
diáspora açoriana.
Termino já! Estão de parabéns os amantes da música popular dos Açores. Os nossos netos vão em breve começar a perceber que, para além da toada nostálgica dos romeiros, da religiosidade telúrica dos "quadros-falantes" de Domingos Rebelo, os Açores têm um património popular singular, que testemunha a valentia silenciosa da solidão insular tão sentidamente descrita pelos nossos poetas e cantada pelos nossos artistas.
O Grupo Belaurora e o seu criador Carlos Sousa honram sobremaneira a voz de um povo que, na música e por ela, "encontrou a chave para a iluminação do quotidiano, das suas sombras e mágoas, solidões e maresias." |