A Voz dos Amigos

António Melo Sousa (1992)
... um bom exemplo da necessária redescoberta do cancioneiro tradicional dos Açores, levada a cabo por um grupo cujo trabalho reflecte a verdade de um compromisso assumido com a terra e a gente que inspiram a raiz dos sons que recria.

Urbano Bettencourt (1996)
... o Grupo de Cantares Belaurora tem descoberto matéria e motivações para o desenvolvimento de um coerente (e persistente) projecto de dedicação à nossa música popular.

... quedo-me... à escuta de um rumor-outro que me chega, longínqua Voz de um povo que, na música e por ela, encontrou a chave para a iluminação do quotidiano, das suas sombras e mágoas, solidões e maresias.

António Rego (1999)

Neste trabalho os poetas não assinaram os seus poemas. Ou, se quisermos, assinaram todos com o mesmo nome: o Povo, que fez e faz a história entre risos e lágrimas.

     Poucos não Açorianos serão dignos de descodificar por inteiro este cacho de sons que transportam uma história, uma experiência de oceano intercalado de lava, com gente viva lá dentro a viver, a amar e a festejar à sua maneira.


José Francisco Costa (2000)
... toadas que nos revelam o sereno cinzanil do céu, a alegria pura da terra e do mar, a soledade da ilha. Das vozes e instrumentos, temperados pela simplicidade de quem convive irmanado com a pureza das origens, nasce este trabalho como expressão condigna, porque genuína e telúrica, do palpitar da terra açoriana.

Onésimo Almeida (2003)

Brisa suave e doce, mergulho nas raízes ilhoas que tocam no fundo do mar e do tempo, o Belaurora não acusa sinais da passagem dos anos. CD após CD, prossegue na recuperação de criações insulares de autores, muitas vezes anónimos, que a história barrara de esquecimento.

Daniel de Sá (2004)

... o Belaurora foi por aí adiante em anos e ilhas. Ouviu a voz do povo e cantou com ele e com ele se encantou.

   ... E embalou-nos no seu canto, que é nosso também porque este povo somos todos nós.

João Luís de Medeiros (2007)

... O prestígio musical do Grupo de Cantares Belaurora dispensa o desfile das adjectivações vulgarmente usadas para emprestar a luz desnecessária à
claridade. Como vivente açoriano há anos longe da sua terra, posso confirmar
que desde 1990 me habituei à ressonância artística e à personalidade musical
deste valioso Grupo de cantares açorianos.

Acabei há pouco de apreciar o recente trabalho publicamente apresentado por tão  distinto grupo de amadores da música popular açoriana. Para validar a minha opinião, não receio ser apanhado a escrever atrelado aos dizeres autorizados de gente conhecedora em matéria musical. Mas desta feita estou dispensado de cometer a temeridade de registar ou subscrever um "parecer" especializado sobre a categoria  técnica do músico Carlos Sousa, de cuja amizade me considero honrado. Apesar do muito que já foi dito, a emoção genuína não sabe conviver com o silêncio...

Começaria por notar que o Grupo de Cantares Belaurora impressiona logo à primeira vista: a sua invulgar "silhueta" global parece esculpida no basalto da fraternidade avessa à tentação estrelante. Vamos dizê-lo doutra forma: a individualidade artística dos intérpretes do Belaurora está decididamente apostada num projecto conjuntivo: ao longo dos anos, Carlos Sousa tem sido o esteio directivo que continua a manter sob o pálio da "Voz dum Povo" a complementaridade artística dos elementos que integram o "seu" amado Belaurora.

Perante a ausência voluntária de vedetas de serviço, o Grupo apresenta-se, simplesmente, como uma constelação solidária de artistas...

Como já disse, deixaria as considerações sobre a celebrada qualidade musical do Grupo aos estudiosos na matéria. Diria apenas o seguinte: primeiro, que Carlos Sousa não procura reproduzir, caritativamente, o eco da tradição musical da sua terra; depois, para lembrar que o nosso "maestro" não comete a ligeireza de remendar o tecido melódico da simplicidade rural dos seus antepassados, com "retoques" sensacionais de discutível sonoridade moderna. Nada disso!

Em nosso entender, o Grupo de Cantares Belaurora não dispensa a humildade de receber o seu baptismo da inspiração nas fontes originais da tradição açoriana. E assim vai, na ânsia de reforçar o "arco-de-ponte" entre
gerações: recriar, musicalmente, a essência dos cantares populares da nossa
terra, numa mensagem atractiva às prioridades sócio-culturais da geração
actual. Pessoalmente, receio que a maioria da juventude açoriana esteja
distraída das suas tradições. Não por calculado desprezo às suas origens e
aos seus valores, mas talvez por que acossada pelo imediatismo globalizante
da mega-indústria do musical-pop...

Mas creio que há ainda outro factor significativo que distingue a
inconfundível missão de Carlos Sousa: a inequívoca dimensão regional (e não apenas insular) da sua intervenção cultural. Quando vemos e ouvimos
Belaurora (como aliás se pode confirmar pelo excelente trabalho ora
publicado e registado em DVD) cedo se repara que não estamos em presença dum grupo do folclore micaelense: o timbre equilibrado da dicção das vozes em coro; a escolha dos temas, contemplando todas as ilhas; a controlada
facilidade como interpretam Marciana (São Miguel), Chamarrita Nova (Corvo), Saudade (São Jorge), Manjericão (Pico); a curiosa circunstância de
introduzir instrumental inovativo (caso da flauta, clarinete, sobretudo,
saxofone) - todos estes factores representam opções artisticamente pensadas,
e talvez apostas culturais apontadas ao coração das novas gerações da
diáspora açoriana.

Termino já! Estão de parabéns os amantes da música popular dos Açores. Os nossos netos vão em breve começar a perceber que, para além da toada nostálgica dos romeiros, da religiosidade telúrica dos "quadros-falantes" de Domingos Rebelo, os Açores têm um património popular singular, que testemunha a valentia silenciosa da solidão insular tão sentidamente descrita pelos nossos poetas e cantada pelos nossos artistas.

O Grupo Belaurora e o seu criador Carlos Sousa honram sobremaneira a voz de um povo que, na música e por ela, "encontrou a chave para a iluminação do quotidiano, das suas sombras e mágoas, solidões e maresias."


Bartolomeu Dutra

Lágrimas de saudade

Naquele sábado a Folga durara até às tantas. O Tomás enfiou-se na cama por volta das duas da madrugada, depois de algumas horas com a viola de dois corações aconchegada ao peito, intervalando o rasgar de cordas com idas ao meio da casa para as rodas e voltas que a Chamarrita ia dando, mandadas pelo Rita e pelo Figueira, mais outros que a memória não esquece. Acomodou-se como pôde e foi dizendo à Maria, enquanto as pálpebras se encostavam numa doçura tranquila: - acorda-me às três para eu ir ao mato. E despertou já o sol espreitava para dentro do quarto em ameno cumprimento de bons-dias. Não viu a mulher nem tampouco as canecas na cozinha. Percebeu tudo num instante... Não demorou muito, apareceu ela no rodo do Chico da Rosa, a égua com a corda solta por cima das vasilhas: - ó Tomás, eu não era capaz de t'acordar àquela hora, da maneira que te deitaste cansado. Fui aprendendo com este meu padrinho as cantigas do Pico e de outras ilhas, sobretudo da Terceira. Ouvi-o cantar e recitar versos de cantorias ao desafio do seu tempo de tropa. Obrigado, Belaurora, por todas as palavras e melodias que me ensinaste, sobretudo por esta Saudade da minha ilha que não me lembro de ter escutado ao serão depois das coivas, do conduto da barça, das batatas doces e do vinho que subia da loja no encanto de uma passada ligeira. O esplêndido DVD, Belaurora - A Voz dum Povo, que há pouco me chegou dos Açores, além de nos oferecer alguns dos temas gravados ao longo de vinte anos, em enquadramentos de elevado bom gosto, faz uma breve, mas elucidativa, incursão pela história deste que é, a meu ver, um dos melhores grupos de música tradicional do nosso País. Espero que este trabalho, que prima pela grande dignidade, seja também o sinal de que muitos mais cantares estão para vir. Pelo que conheço do Carlos Sousa, estou certo de que assim será. E aqui ficam duas quadras daquela cantiga que não aprendi com o Tomás, incluída no CD Lágrimas de Saudade:

"Não planteis a saudade,
Que saudade é má flor,
Que uma viva saudade
Me matou o meu amor.

Saudade, terna saudade,
Emblema do meu viver,
Companheira da minha alma
Só morres quando eu morrer."

BARTOLOMEU DUTRA
 

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